Momentos e recordações chatas

Só uma pessoa vai perceber a legenda da foto, apenas e só uma… As minhas verdadeiras amizades contam-se pelos dedos e porra, sobram muitos dedos porque amizade é uma coisa poderosa, a maioria das pessoas são apenas conhecidos com quem nos damos algumas vezes mas considerar alguém amigo, aquele a quem nos damos a conhecer, isso é – para mim – um passo gigante e muito raro, até há pessoas com quem, a um dado momento, convivemos todos os dias, mas isso são meros convívios, amizade é outra coisa, rara e não é qualquer um ou uma, que tem esse privilégio 😌

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Soft girl… haverá quem perceba 🙂

Depois há a chamada família de sangue, aqueles que não escolhemos mas com quem partilhamos não só o nosso ADN como uma data de recordações, situações e memórias que ficam gravadas no nosso mais profundo ser… Porque ficam e ainda bem que é assim… Bem sei que há famílias que se separam, que não se dão ou falam, mas isso é bem triste, são aquelas pessoas que estão lá para o bem e para o mal, desde o nosso início e isso, também é precioso e deve sempre ser mantido 😉

A minha mãe, talvez por ser filha única ou por ler aqueles livros para as mães dos anos 70, achava que eu ia ter ciúmes da minha irmã… Não podia estar mais enganada, foi coisa que nunca senti, mas apesar de só termos 3 anos de diferença, guardo algumas memórias, de a ir ver à mesma maternidade onde 27 anos depois eu mesma teria o meu filho, dizem que lhe meti um dedo no olho por ciúmes… A ter realmente metido, foi na tentativa de lhe dar um beijo ou num qualquer acidente próprio de uma miúda de 3 anos, não foi de propósito certamente 😌 mas era suposto eu ter ciúmes e portanto acharam que foi ciúmes

Lembro mais tarde de estar junto ao berço dela a olhar para ela, ela com os olhos muito abertos a olhar para mim e eu a pensar que não a conhecia, que aquele ser tão calado, com os olhos muito abertos, não a conhecia, quem era??? Na altura tive receio porque não sabia de onde ela realmente vinha e quem era, foi portanto objeto de observação 😌 Enfim, rapidamente isso foi ultrapassado da minha parte e ela aceite como a minha irmã mais nova 😉

Também lembro, muito bem infelizmente, mais tarde, de termos uma empregada em casa com alguns problemas, chamava-se Licínia mas aparentemente gostava de mim e detestava a minha irmã, lembro-me de ela a bater na minha irmã bebé com uma colher de pau, tenho essa memória visual e também de a fechar na despensa às escuras, de castigo e sempre a pedir o meu silêncio… Aquilo assustava-me eu talvez não tivesse ainda 4 anos e nessa idade não se sabe o que fazer nestas circunstâncias como é óbvio, mas já na altura não me parecia bem o que ela fazia à minha irmã…

Lembro-me do dia em que me levou de elétrico e foi atrás de um namorado até ao jardim de Belém, a pedir-me para dizer que eu era irmã dela e dele se zangar com ela, ela ter ido atrás dele e me ter deixado sozinha no meio do jardim, assustada claro e a desgraçada da minha irmã sozinha em casa, no seu berço

Dizia a toda a gente que se chamava Carla, como se o meu nome fosse bonito coisa que não acho mas enfim… Começaram a chover telefonemas lá em casa, homens adultos a pedir para falar com a Carla que eram o namorado… Os meus pais por causa dos telefonemas anónimos, tinham pedido para ter o telefone sob escuta, tal era o número de acontecimentos telefónicos estranhos… Quem solicita esse serviço, quando alguém ligava para esse número, atendia a telefonista, a pessoa dava o número de onde estava a ligar, desligava e era a telefonista da PT a fazer a ligação…

Um desses dias, ligou um homem, identificou-se de boa fé e a chamada foi feita… Atendeu o meu pai, ele que era o namorado da Carla ao que o meu pai lhe explicou que a Carla era a filha dele e tinha 3 anos… O fulano desligou zangado a achar que estava perante um pai zeloso demais… Combinou-se que no próximo telefonema atendia eu e logo de seguida atendi mesmo e disse com a minha voz infantil:

– Eu sou a Carla

O fulano desligou danado e depois o meu pai ligou-lhe e foi falar com ele a um restaurante onde trabalhava em Linda-a-Velha se não estou em erro e claro que esse pseudo romance terminou…

Mas não a despediram, estávamos no pós 25 de Abril e não era fácil despedir funcionários, tinha de haver um forte motivo, bem forte mesmo, devíamos estar em 1975 ou 1976, pleno verão quente…

Depois das agressões à minha irmã, até meio a medo porque eu gostava da Licínia mas gostava mais da minha irmã e sabia que havia algo de profundamente errado naquilo tudo, contei à minha mãe e depois mãe de um lado e pai do outro, o que se estava a passar… Nunca tinha visto o meu pai tão zangado para ser sincera… Em pleno Verão quente ele foi ao sindicato das empregadas ou lá onde foi expor o caso e eles apoiaram-no inteiramente o que mostra a gravidade da situação

Lembro-me de ter vindo a polícia, de terem chamado a mãe dela furiosa com a filha, de lhe estarem a revistar as roupas e pertences, lembro-me da mãe dela lhe ter dado um tremendo estalo… Isto, do que eu vi, porque, de facto, fui retirada do meio daquela situação, confinada ao meu quarto como é lógico, a situação não seria própria para uma criança daquela idade, mas deve ter marcado porque 40 e muitos anos depois ainda me lembro de forma muito vivida…

Mas chorei porque gostava dela Licínia e não queria que algo de mal lhe acontecesse apesar de, como é óbvio, não ser normal nada daquele comportamento

Descobriu-se depois que dizia aos nossos vizinhos que era filha dos meus pais, que se chamava Carla e mais uma data de invenções… Temos sempre que ter presente que naquela altura pleno verão quente, não se despedia assim uma empregada só por mero capricho, a situação no país era um pouco quente digamos assim e não se brincava com certas coisas mas para terem dado razão aos empregadores dá para ter uma ideia da gravidade da situação

Nem sei porque estou a recordar isto nos dias de hoje, calhou na lógica da minha escrita suponho…

É o meu karma acho, ser um repositório de histórias mas não podia guardar um segredo daqueles, a minha irmã claro que não se lembra, mas eu tenho essa memória da Licínia a bater nela, frente à janela da cozinha e por muito que me fosse pedido, não poderia guardar esse segredo… Acho que o que me custou mais até foi ela ter fechado a minha irmã na despensa às escuras, mais do que o bater… Ambas custaram mas o fechada às escuras foi pior do meu ponto de vista acho

Enfim, a minha irmã por não se recordar, não terá ficado com memórias tristes, essas ficaram para mim mesma 😉

Da Licínia não reza a história, volta e meia tenho curiosidade de saber o desfecho da criatura mas pronto, melhor não saber mesmo 😉

Pronto got to go

( ͡ʘ ͜ʖ ͡ʘ) Carla

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