Ao meu pai…

20190214_204202.jpgInfelizmente o meu pai acabou por falecer, de forma absolutamente inesperada, esta segunda-feira dia 11, pelas 10:30 no Hospital de S. Bernardo em Setúbal… foram pouco mais de 2 semanas internado na UCI em coma induzido… Foi terrível para todos nós família…

Escrevi o texto abaixo pelas 15 horas de quarta-feira quando me preparava para ir para o velório, na Igreja da Cruz Quebrada, local onde sempre viveu desde o casamento… escrevi de rajada como faço muitas vezes… queria ser eu a lê-lo, no final da missa, mas acabei por pedir à minha sobrinha Gabriela que o fizesse e debulhada em lágrimas, acabou por o ler… pedi-lhe que metesse o papel que acabara de ler no caixão para que o levasse consigo… é-me muito difícil, não estava preparada para algo assim, era um homem excepcional que não merecia morrer já.

Aqui fica, de rajada:

Ao me pai…

Ao homem aqui à nossa frente…

Homem extremamente inteligente, o meu pai, aliás, nosso pai, sogro e sobretudo avô, era um homem excepcional.

O seu gosto, sonho de criança, era a física, ultimamente a física quântica, mas acabou por se ficar pela química e, pelo que contam, era competente e aliás, trabalhar apaixonava-o, Esse talento já lhe vinha de muito jovem, contam as “lendas familiares” que costumava aproveitar os momentos em que a mãe Luísa ia à mercearia em frente, para trepar para o fogão e, misturando componentes que ele estudava em livros, fazer por exemplo sabão, deixando a mãe muito aflita com receio de alguma explosão.

Estudar, além de trabalhar, foi sempre o seu talento, não só a química onde tinha excelentes notas, excepção feita a um certo exame onde a substituição do professor por doença, com a elaboração da prova de forma estranha, o que causou o chumbo de toda a gente, sendo ele o único a ter nota positiva, Os colegas repetiram e tiveram positiva, já com o professor deles e ele acabou por baixar a média por ter sido o único a passar aquele exame mas com nota mais baixa que o costume.

Mas estudava, com gosto, tudo o que podia, desde electrónica, o que levava diversas pessoas a levar-lhe rádios e televisões que ele arranjava de graça e a mim, filha mais velha, a soldar pequenas coisas porque lhe tremiam as mãos. Além da electrónica, tirava cursos, desde jornalismo a hipnose que o obrigou a forçar os olhos e causou a lenda mais ou menos verdadeira, que quando chegava à Carregueira de Mação, entrava nos galinheiros e deixava as galinhas hipnotizadas, a dormir. Ultimamente ele dizia que não era bem assim, que era uma história mal contada, um exagero, mas na verdade, ainda hoje isso é falado.

Adorava conversar e perdia sempre tempo com quem a isso se dispunha, desde pessoas mais rurais a pessoas de grau académico mais elevado.

Com o seu casaco, verão ou inverno, chapéu na cabeça, falava bem com toda a gente e nunca se lhe conheceram inimigos.

Aberto e de bom coração, vivia sozinho depois de viúvo, nesta terra para onde se mudou quando casou em 1968, na companhia dos seus 4 gatos, Pica-Pau, Romy, Isis e Troika, esta última chegada nessa altura e pelo mau feitio merecedora do nome. Era absolutamente zeloso com eles e sempre me pediu que deles cuidasse se alguma coisa lhe acontecesse, o que vou sem dúvida fazer. Estão obviamente abalados e inquietos com o seu desaparecimento, mas se não lhes posso trazer o dono de volta, deles vou cuidar e tentar substituir.

Por último e não menos importante, era um homem dedicado à família.

Autónomo, nos seus 75 anos, todos os domingos fazia mais de 60 km para vir almoçar comigo ou, como quando estive internada em Setúbal, todos os dias, à hora da visita, lá estava religiosamente e, essa visita, nesses 10 dias, eram o ponto alto do meu dia.

Se, por algum motivo, eu não atendia o telefone ou o tinha desligado, ligava aos meus vizinhos todos e não raro lá vinha uma vizinha com o seu telefone para eu atender.

Foi um pai absolutamente presente, a todos os níveis, tanto sabia ficar em silencio e ouvir nas minhas crises da adolescência, como sabia explicar calmamente como, quando e porque se davam as trovoadas e como calcular a distância a que as mesmas se encontravam… sim sim, ainda hoje conto os segundos entre o trovão e o relâmpago, multiplico por 343 para esse efeito, isto por vezes com pessoas aflitas com um simples trovão. Da mesma maneira me apoiou, quando decidi salvar um cavalo esquelético e esfomeado, fosse financeiramente (já lhe devolvi o dinheiro), fosse quando eu desesperava para encontrar uma grua que o levantasse, fosse a dar-me força e dizer que estava a fazer bem, fosse, pasme-se, apesar de ter medo de um animal tão grande, a ajudar a veterinária.

Porque sim, sempre foi muito dedicado às filhas,preocupado quando algo estava menos bem, mas também orgulhoso nos bons momentos.

Eu e a minha irmã Cristina, éramos sem dúvida o seu foco de orgulho, o seu principal motivo de conversa, do genro Theo ele dizia à boca cheia “o meu genro é o melhor tatuador do mundo” frisando a palavra mundooo e depois os netos, o seu amor e orgulho maior.

Pedro, o mas velho e ainda por cima o desejado rapaz, para ensinar a jogar à bola e que tantas alegrias e também ralações lhe deu, mas boas sobretudo e essencialmente foco de orgulho.

Depois a Gabriela, com os seus enormes olhos azuis e que mostrava fotos aos amigos que diziam lindissima. E ainda mais orgulhoso porque estava a estudar para enfermeira.

A seguir vem a Joana, que o adora e que ele dizia que cada dia mais o surpreendia pela positiva, que ela vai mais longe do que se pensa. Por último, a pequenina Luísa, também inteligente e que nos Natais o fazia correr à procura do boneco XPTO que acabava a comprar para as duas netas mais novas.

Era um avô absolutamente orgulhoso e dedicado a todos os netos que também o adoravam e gostavam de estar com ele.

O que te aconteceu pai, foi absolutamente cruel, injusto e sem sentido, sem absolutamente qualquer sentido e vamos sentir a tua falta, já o senti nestes dias no hospital e pior será no futuro, a sensação de ouvir o meu telefone tocar, o pensamento dizer-me “é o meu pai” e enquanto procuro o aparelho no poço sem fundo que é a minha mala, dr repente perceber que não, não é o meu pai que me telefona… Não o pode voltar a fazer.

É injusto, revolta-me e deixa-me triste, triste como poucas coisas me podem deixar triste.

Perdi aquele a quem posso ligar a contar isto e aquilo, o companheiro que se sentava na cadeira da sala, chapéu na cabeça, a ouvir as notícias ou a falar desta ou daquela coisa. Será talvez essa a minha perda maior, a quem ligo agora???

Com quem vou tagarelar agora de tudo e mais alguma coisa pai???

Tudo o resto se passa e resolve, mas a quem vou ligar agora??? Como ouvir a tua voz?? Quem me vai agora irritar a conduzir de forma anarquista??

Gostava, espero que me consigas ver e ouvir… a Joana vai sem dúvida escolher uma estrela para ti…

O certo é que vais estar sempre nas nossas lembranças e corações, que terás sempre e para sempre um lugar nos nossos corações, corações que não só carregam os teus genes mas também tudo aquilo que nos ensinaste e transmitiste, a ser bons e corretos.

Queremos, como irmãs, orgulhar aquilo que nos transmitiste e perpetuar o que somos como família graças a ti, família de que és uma das raízes e que enraizadas vão ficar, filhas, netos e bisnetos que já não foste a tempo de conhecer mas que são o teu legado e, se nos estás a acompanhar, sabe mais uma vez que o que tivemos a oportunidade de te dizer, que te amamos, que nos orgulhamos imensamente de ti e que te agradecemos pelo pai e avô que foste, nosso amor e orgulho.

Adoramos-te.

Escrito pela filha mais velha, Carla e lido pela neta Gabriela no final da missa de corpo presente.

A meu pai, um homem excepcional.

Carla

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