Nuvens 

O dia começou com nuvens e até se aplica pois, também hoje, a minha alma está assim a modos que cheia de nuvens 😕

Nascer do sol carregado de nuvens
Nascer do sol de hoje, carregado de nuvens

Sábado passado, dia 23 de Setembro, chegou a notícia da morte daquele que foi o meu primeiro cunhado, primeiro namorado da minha irmã, o Guilherme, a quem toda a malta, carinhosamente, também tratava por Guilhas… Foi um namoro longo, com montes de problemas, tendo, no topo do bolo, o completo percurso no mundo das drogas que, tanto ele, como montes de “miúdos” ali da zona, escolheram seguir, escolhendo ignorar as consequências que esse caminho obviamente traria, como trouxe a quase todos, inclusive a morte de vários. No meio de tudo, havia também frequentes situações do que hoje se chama “violência no namoro”, muitas vezes motivadas pela falta de autocontrole, a que, as drogas ajudavam.

Eu, acima de tudo, sempre defendi a minha irmã e acho que ninguém coloca isso em causa, aliás, ele na minha presença não se atrevia a tocar-lhe porque sabia que haveria problemas, eu era logo de ir à polícia e etc. e, no fim, bastava chama-lo num determinado tom  para ele levantar as mãos e dizer “não lhe estou a bater, não lhe estou a bater”

Obviamente e apesar da grande amizade que lhe tinha* apesar das drogas era também uma pessoa com qualidades com quem sabia bem estar…

* Chegamos a tê-lo em nossa casa, a que comprei com o meu primeiro marido, quando ele, expulso de casa, já não tinha para onde ir e passamos um monte de bons momentos todos juntos. 

Quando, anos mais tarde, soube que ele estava em processo de recuperação numa quinta, comunidade, em Espanha, resolvi escrever-lhe uma carta e ele respondeu emocionado a falar sobre a sua nova situação, muito devotado à Deus e por aí fora… Nessa altura, eu vivia na Graça e terei abrandado a correspondência quando se deu todo aquele processo da gravidez da minha filha, situação por demais complicada. Mais tarde ficamos amigos no Facebook, trocávamos likes e comentários esporádicos 😊

No entanto, o tal caminho da droga, deixou sequelas bastante graves e, sábado, ele perdeu a batalha que há tantos anos travava e sim, pode-se dizer que já não sofre mais, mas ao mesmo tempo, revolta um bocado**, revolta especialmente ver como eles evoluíram, o que sofreram e as consequências de tudo isto.

** Há quem diga que se deitaram na cama que fizeram e, analisando friamente, isso até pode ser verdade, mas será que algum deles tinha, de facto, consciência daquilo em que se estavam a meter??? Na nossa sociedade Portuguesa sempre com o “só acontece aos outros”, seja nos acidentes de viação, seja no ficar agarrado a uma droga… É que eu acho que não, muito sinceramente, a maioria tinham pais divorciados, pouco presentes dinheiro e liberdade para fazer a maioria das coisas que queriam fazer, aliás, os que se safaram melhor foram aqueles em que os pais, pulso firme, decidiram agarrar as rédeas, mas até a esses foi um caminho complicado no final, para os que estão vivos, ainda é, de certeza e, vai continuar a ser.

Na altura, o fenómeno dos “drogados” era ainda desconhecido da sociedade em geral, não havia a quantidade “de drogados” que poucos anos mais tarde começou a haver, de malta a roubar para a droga, a dormir na rua, a pedir moedas para estacionar carros, etc. Depois do fenómeno se instalar em massa por esta sociedade fora, as pessoas tomaram conhecimento, passaram a saber reconhecer os drogados na rua, etc., a ouvir histórias de famílias suas conhecidas em que os filhos roubavam tudo em casa, vendiam tudo nem que fosse um frango que lhes tinham dado, a preços irrisórios, para comprar droga… Mas, naquela altura não e eles mesmo, os que estavam a entrar nessa via, não tinham real conhecimento daquilo em que se estavam a meter.

Poucos anos mais tarde, quando o fenómeno alastrava por todo o lado, a própria polícia ia às escolas, às aulas, levava as drogas todas ao vivo, mostrava, explicava o que era, as consequências de cada uma das drogas, os nomes pelas quais eram conhecidas, com se tomavam, preparavam para que se sentisse o cheiro de cada uma, etc. Mas naquela altura, início dos anos 90, perdeu-se claramente uma geração de jovens.

Não digo que essas ações da polícia tenham “safado” todos os miúdos, mas acredito que o conhecimento safou muitos pelo simples facto de que tinham a informação, de saberem por exemplo que fumar uma chinesa não era a mesma coisa que fumar um cigarro.

Quanto a mim e à minha irmã, nós tínhamos esse conhecimento do que eram as drogas, dos seus efeitos, do mal que faziam, comprávamos assiduamente revistas, brasileiras porque na altura havia muito poucas revistas portuguesas como é hoje a atual Activa, destinadas a jovens e que falavam desses e de outros assuntos, seja das drogas, seja de sexualidade, de métodos anticoncepcionais e por ai fora e portanto, mal ou bem sabíamos… Talvez termos ambas sido escuteiras e mal ou bem termos uma família unida, nos tenha dado personalidade para saber dizer não… claro, a primeira vez que me passaram um charro na roda onde estava sentada e o recusei, pensaram que era anormal, da segunda também, mas rapidamente perceberam que eu simplesmente estava a dizer que não sem que isso me fizesse anormal e aceitaram que eu era assim.

É caso para dizer que ter a informação faz de facto toda a diferença.

É ainda caso para dizer que fazer um grupo respeitar o nosso não, pode ser um ato de coragem para quem está na adolescência, mas nos soubemos dizê-lo e ser respeitadas por isso, como qualquer adolescente que o saiba dizer acaba por ser respeitado, coisa que muitos não tem força de personalidade para fazer. Talvez termo-nos uma à outra tenha também sido muito importante, já nem sei.

Muita gente se interroga porque decidi manter o contacto com ele, há quem nem sequer entenda, mas eu sou assim, sei separar as águas, sei de que lado está a minha fidelidade, sempre para com a minha irmã, como é óbvio, mas isso não faz com que eu apague a amizade que, na altura, tinha para com aquela pessoa… Mantenho as necessárias distâncias, não fomento reaproximações, não trago à baila assuntos do passado, isso seria um tremendo erro até porque as coisas têm momentos e cada vida segue os seus rumos mas, quando houve amizade verdadeira, não deixo que morra, basicamente conservo esses sentimentos independentemente de tudo o resto e sem nunca esquecer o passado de mau e bom. Vou apenas sabendo da pessoa, mostro que “ainda existo” em nome da amizade, mas fica a coisa por ai, como logicamente tem de ser.

Agora prefiro recordar o lado bom dele, o sorriso sempre pronto, o lado brincalhão, os episódios bons que foram muitos, a entrada no meu copo de água à pendura na mota potente dele, que fazia piões 🙂 Os muitos momentos, quando me estava a ensinar a usar a minha Target e o cheirinho mais forte me lançou por uma enorme descida hehehe

Foram muitos momentos e, para terminar, aqui deixo uma foto recuperada dele atentamente a ver as eletrónicas do meu pai, que antes tinha esse passatempo 🙂

 

Guilherme e pai eletrónicas
Guilherme observando atentamente as eletrónicas do meu pai

Ou, como também o recordo, em cima da Suzuki Wolf 50cc da minha irmã, com o seu capacete e o seu sorriso tão característico   🙂

Guilherme Wolf
na Suzuki Wolf 50cc da minha irmã

Descansa agora Guilhas, depois de toda esta luta, bem mereces 😥

Carla

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