12 anos depois

E no dia em que o frio do Outono me leva a acender a lareira , nostálgica, 12 anos depois, recordo, como muitas vezes ao longo dos meus dias, o texto que escrevi, lavada em lágrimas, no dia em que tive de mandar abater a minha grande companheira Rufi, minha primeira cadela Boxer que, não sendo perfeita do ponto de vista morfológico (orelhas geralmente de abano, olhos claros, tipo antigo) o era, sem dúvida, em temperamento e que foi de facto dos animais que mais me marcou e que me deixou esta doença de gostar de Boxers, do seu porte característico e sobretudo do seu carácter tão único e especial.

Depois da Rufi tive vários Boxers, a Feline de Sande com o seu feitio especial, a querida Vitória de Canipalma, o meu amado Gontzal, a Bianca e finalmente o Bóris ainda vivo… Todos me encantaram, todos tiveram o meu amor, mas ela foi a primeira e com quem compartilhei  10 marcantes anos, de altos e baixos, das nossas vidas.

Adeus minha cadela

rufi

…o nosso tempo acabou e sinto que te trai…
por muito que eu saiba que nada havia a fazer, por muito que saiba do teu sofrimento… a minha impotência é tanta que é a única coisa que consigo sentir… que te trai…
porque eu, a tua dona, mais que dona, muito mais, a tua companheira de 10 anos, a tua amiga, a tua irmã, desta vez nada pude fazer senão baixar os braços impotente face ao teu sofrimento…
estavas lúcida… lúcida demais… ou ias estando lúcida, nos intervalos entre a dor, entre quereres fazer a tua vida e não conseguires… as patas da frente a esgravatarem em vão o chão com essa força que só um Boxer tem… a tentares por-te de pé para vires atrás de mim, para me seguires pela casa, para apanhares sol enquanto eu fazia jardinagem e o resto do corpo, desse corpo lindo e outrora musculado, a não obedecer…
…porque continuavas a querer vir comigo e com o teu dono – sim porque o teu verdadeiro dono foi ele, penso que te amou tanto ou quase tanto como eu – continuavas a querer vir connosco tomar a bica depois do jantar, continuavas a querer ir receber-me à porta quando eu chegava…mas esse corpo já não obedecia, a massa muscular das pernas traseiras desapareceu por completo…. só essa personalidade estóica ali continuava… num gemido muito baixinho destes dois últimos dias… um Boxer não chora, não se queixa, não gane… por muito que doa… é a verdade!
sempre subimos e descemos juntas as montanhas que a vida foi colocando à nossa frente… juntas e unidas… todos os momentos… e sempre corremos juntas pelos vales planos, tranquilos e floridos… que os houve… era-mos mais que uma dona e a sua cadela… muito mais… éramos companheiras no verdadeiro sentido da palavra… os nossos olhos brilhavam uma para a outra… foi para mim o teu olhar quando acordas-te da operação que há uns anos te fizeram… foi por ti que gritei e chamei quando acordei da cesariana no meio da neblina da anestesia geral… uma para a outra num amor incondicional e que ultrapassa a barreira das espécies…
eu sei que fiz o indicado, o ético, o melhor… sei que não sofres-te… sei que nem te apercebes-te… sentis-te uma pequena picada e literalmente adormeces-te muito muito suavemente, tanto que só o percebi quando vi a vida a desaparecer desses teus olhos lindos… para ti foi apenas mais uma ida ao veterinário sem nada de estranho… talvez haver muita gente à tua volta fosse estranho, mas de resto tudo normal… foi uma morte digna e suave… era com essa suavidade que toda a gente devia morrer… não é por isso que sinto que te trai, nisso podia dar-te mais uns dias de dores e falta de ar… sinto que te trai porque não sei qual dos dois caminhos seriam preferíveis para ti, qual querias seguir, se este que escolhi, se aguentar estoicamente até ao fim… não o sei e tu não mo poderias dizer…
e sinto que te trai porque desta vez nem eu nem ninguém poderíamos fazer nada para te salvar… nada… essa massa crescia e crescia como se de um bicho se tratasse e nada se podia fazer…
eu, que te amo, nada pude fazer e por isso sinto que te trai…
levei-te para a terra da minha família, para as minhas raízes, para a casa de família que me acolhia sempre nos meses de verão da minha infância e adolescência…
sepultei-te na horta ao fundo do quintal, junto do muro, mesmo ao lado de um dos marmeleiros, para te dar sombra, na horta que eu dizia ser “a minha horta” quando era criança e ali passava o verão…
para lá o caminho foi relativamente fácil, o inconsciente sabia que estavas dentro do carro, como se fossemos passear os três, como tantas vezes…
mas a volta foi difícil, voltamos só eu e o teu dono, deixamos-te para trás…
cada Km que o carro fazia me doía no peito… cada Km ficavas mais longe… cada Km que eu fazia em direcção a Lisboa nos separava mais…
foi difícil e conduzi com uma precisão cirúrgica, a ultrapassar toda a gente, com raiva… não sei…
cada Km me doía mas tinha de os fazer…
As lembranças pairam na minha cabeça…
quando te fui buscar, cachorra grande, assustada e deliciosa…
tu a correres lado a lado com o teu irmão Master James na Praia da Torre…
quando te escapulias para a minha cama e dormia-mos enroscadas uma na outra…
quando eu chorava e tu aflita me lambias a cara até eu parar e rir das tuas palhaçadas…
vão continuar… eu sei que sim…
vou bater com a cabeça nas paredes durante uns tempos… mas chorar faz bem… ajuda a suavizar as coisas… ajuda a acalmar… ajuda a guardar-te numa caixinha dentro do meu coração…
nem imaginas o quanto eu gosto de ti…
O teu dono decidiu que ficava contigo até ao fim… eu vacilei um pouco, pedi para me despedir de ti e sair, mas depois de o fazer, decidi o contrário e fiquei contigo também… teria de ser assim… morreste com a cabeça apoiada nos meus braços, com os meus beijos, abraçada a mim, o teu dono a fazer-te festas…
morreste entre nós como deve ser…
a ouvir a nossa voz, a sentir o nosso carinho…
porque especial como és… é o que mereces…
eu vou sempre guardar-te no meu coração…
Adeus minha cadela…

Para a minha Rufi
My Fair Lady do Alto de Santo Amaro
15-01-1994 a 15-10-2004
Em: Montijo 15-10-2004 22:27:07 (6ª feira)
Por: chokole

Obrigada por me teres ensinado o que é amar um Boxer 🙂
Carla

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